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Le rêve au quotidien
UTOPIA 5 (Portugal), 1996

ALTERNATIVAS

Ao lermos o livro - Le Rêve au Quotidien de Domenico Pucciarelli, mais conhecido entre os amigos por Mimmo, ficamos com a impressâo de mergulharmos num mundo que jâ vivemos em esporâdicos momentos, ou por vezes tentamos utopicamente construir. Sâo os dilemas de sempre que se deparam a todos aqueles para quem a palavra e o acto humano sâo antes de mais uma aprendizagem social mediatizada pela solidariedade e a liberdade.

Ao confrontar-me com a leitura deste excelente livro, sinto-me cûmplice da anâlise do autor, pois que do ponto de vista objectivo e subjectivo, também eu senti e percorri alguns dos caminhos teôricos e prâticos que fazem parte dos movimentos sociais alternativos nos paises capitalistas desenvolvidos desde os finais da década de 60.
Nâo sendo um livro com caracteristicas académicas, nâo obsta que os instrumentos analiticos utilizados pelo autor sejam, em parte, deduzidos de alguns paradigmas sociolôgicos ciâssicos. Tratando-se de uma investigaçâo circunscrita a um percurso individual perpassado por uma realidade sôciohistôrica muito especifica (1975-1995), é natural e compreensivel que o método da observaçâo participante e anâlise documental se tenham constituido como sustentâculos da interpretaçâo e explicitaçâo que Mimmo emprega no seu trabalho.
A histôria do movimento social alternativo de Lyon jâ vem de longe. Desde meados do século XIX que o operariado desta cidade demonstrou a sua radicalidade na luta contra a negatividade da exploraçâo e opressâo capitalista de entâo. Embora sendo objecto de contingências histôricas substancialmente diferentes, a acçâo colectiva das associaçôes, cooperativas e comunidades sediadas na encosta do bairro pobre de Croix-Rousse, no periodo histôrico em anâlise, foi essencialmente estruturada por relaçôes sociais baseadas no interconhecimento, na autonomia e na democracia directa. Sendo uma experiência de resistência aos ditames normativos do mercado e do Estado, pautou-se por valores, ideologias, prâticas e principios libertârios.
Querendo sair dos constrangimentos negativos do trabalho assalariado, do lucro, da concorrência e de uma organizaçâo social do trabalho inscrita na autoridade hierârquica, ao constituirem-se como microcosmos de participaçâo e decisâo colectiva, os individuos e grupos que se integraram num processo de autogestâo singular, tomaram nas suas mâos os destinos das suas vidas, sem dependerem de qualquer comité central partidârio ou ôrgâo de gestâo empresarial. Como o autor do livro sublinha, é evidente que esse processo nâo foi pacifico nem foi isento de contradiçôes e conflitos. A força coerciva do meio ambiente circundante fez-se sentir, ao ponto de uma parte substancial dessas experiências autônomas terem perdido parte do seu dinamismo inicial ou soçobrarem pura e simplesmente.
No quadro das utopias contemporâneas, Mimmo demonstra-nos que o movimento social alternativo do bairro Croix-Rousse resulta de dois factores fundamentais. Em primeiro lugar, das caracteristicas da envolvente social, politica, cultural e ideolôgica que atravessou os paises capitalistas desenvolvidos. Em segundo lugar, da crise dos partidos, dos sindicatos, do Estado, do "socialismo real" e do capitalismo que se desenvolveu apôs a década de 70.
Em relaçâo ao primeiro factor, face às contingências alienantes e massificadoras dos modelos de produçâo e de consumo capitalistas, uma parte significativa da juventude, estudantes, intelectuais e mulheres mobilizaram-se num processo de oposiçâo e de reivindicaçâo à ordem social vigente. Através da mûsica, do teatro, do cinema, de actividades culturais, sociais e econômicas foi possivel desenvolver uma acçâo colectiva consubstanciada na criaçâo de milhares de organizaçôes, tentando subtrair-se à realidade normativa do mercado. O caso da Alemanha ocidental foi muito elucidativo a este respeito. Em Berlim, sô nos anos de 19781979. viviam cerca de 150.000 pessoas em 25.000 comunidades (ob. cit., p. 35), procurando viver, trabalhar e habitar a cidade de uma forma alternativa e autônoma. Desde finais da década de 60 nâo admira que estas formas organizacionais se desenvolvessem como antros de interconhecimento e de identidade sôciocultural, transformando-se rapidamente num processo de aprendizagem sociale de resistência ao capitalismo e de revitalizaçâo da utopia libertâria. Seguindo a mesma trajectôria histôrica, durante 20 anos, o bairro de CroixRousse foi sujeito e objecto de 79 experiências, repartidas em actividades de cinema, arte, mùsica, tipografia, cartografia, colégios de crianças, casas de saûde, livrarias. editoras, restaurantes ; etc. (ob. cit. pp.6369). Foram experiências ricas com repercussôes manifestas na vida quotidiana das pessoas que as integraram, permitindo que a solidariedade, a fraternidade e a liberdade ultrapassassem muitas vezes as vicissitudes da opressâo e da exploraçâo capitalista. Parte dessas experiências soçobraram, mas isso nâo obsta que algumas ainda continuem a subsistir e que os seus ensinamentos utôpicos e revolucionârios sejam de uma grande actualidade.
Maio de 68 foi sem dùvida o grito de revolta do movimento estudantil contra a degenerescência do capitalismo e do Estado, mas também uma luta contra a burocratizaçâo, a ortodoxia e ideologia dos partidos e sindicatos clâssicos. O esquerdismo desenvolveu-se como oposiçâo ao modelo marxistaleninista soviético, ao mesmo tempo que as tendências marxistas radicais, autônomas, libertârias e anarquistas emergiam com relativa facilidade. O ressurgimento destas utopias tiveram um grande impacto na criaçâo de um movimento social alternativo que procurou e procura superar esta sociedade moribunda. Na opiniâo de Mimmo, nunca poderemos compreender os movimentos sociais alternativos nos paises capitalistas desenvolvidos nem tâo-pouco explicitar o que ocorreu no bairro Croix-Rousse, se nâo tivermos presente a funçâo dos principios e prâticas que atravessam essas correntes ideoldgicas. Na medida em que o marxismoleninismo se revela cada vez mais uma ideologia decadente no espaço de intervençâo das sociedades actuais, mais do que nunca a utopia e as alternativas libertârias podem consubstanciar-se em movimentos sociais conducentes à emancipaçâo social.
Pelo que referi precedentemente, aconselhase vivamente a leitura do livro de Domenico Pucciarelli, jâ que ele nos possibilita o acesso a uma informaçào objectiva de grande importància e nos dâ, por outro lado, uma visâo sociolôgica muito pertinente de como podemos começar a aprender a associar a teoria com a prâtica possivel do anarquismo.

J.M. Carvalho Ferreira